sexta-feira, 8 de abril de 2022

a linha quase invisível entre o passado e presente

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na última segunda-feira (14/03) vivi meu primeiro dia de aula presencial após dois anos de pandemia. uma segunda primeira vez refazendo o caminho que havia feito tão empolgada com o início da graduação em 2019. porém foi apenas quando já estava chegando ao Centro de Artes e Comunicação da UFPE, o CAC, que comecei a reparar no quanto as coisas estavam tão iguais e tão absurdamente diferentes ao mesmo tempo. na verdade, pode-se dizer até que, exceto pela entrada principal que não era mais a mesma, as demais diferenças podiam ser consideradas sutis aos olhos menos atentos. era uma árvore que não estava mais lá, uma porta agora fechada, outra sala vazia, o sumiço de uma arte que antes vivia naquela parede… ou seria naquela outra? o tempo é impiedoso com as memórias.

cogitei até que a diferença estivesse totalmente em mim. afinal, se o lugar não mudou tanto, porque é que não me sinto mais parte dele? acho que a sensação de não pertencimento vem da falta das pessoas. antes o CAC costumava ser quase um órgão vivo, era gente indo e vindo em um movimento contínuo em quase todas as horas do dia. igual um coração que não pode parar. sinto falta disso. lembro que numa das tardes de aula antes da pandemia, estava em uma das cadeiras de um dos diversos corredores quando pessoas do curso teatro passaram correndo e interagindo com quem estava pelo caminho. acho que eles estavam fazendo algum tipo de prova naquele dia. também não tenho mais certeza dessa lembrança. 

e confesso: depois de dois anos longe de lá, a minha memória sobre o universo do centro já não é mais tão forte, exceto quando se trata das pessoas. nesta primeira vez pela segunda vez no CAC, além da saudade do vai e vem humano, senti muita falta de algumas figuras específicas. entre elas, a tia do bolo de pote. todos os dias ela costumava ficar sentada com sua caixa térmica cheia de bolos de diversos sabores na esquina da rua do CAC, em frente ao r.u. eles eram saborosos e custavam r$3,00. eu provavelmente não era a única pessoa a viver à beira de uma diabetes por comê-los quase todos os dias. o mesmo acontecia com o brownie do tio que ficava próximo a xerox do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) – estes eram dois reais também previstos no orçamento e que eu pagava de muito bom grado. 

lembrando agora é impossível não pensar para onde foram essas pessoas e tentar imaginar o que elas fazem agora. atualmente esse é o tipo de pensamento que me leva para lugares dolorosos e assustadores que não desejo expressar aqui. por outro lado, felizmente, algumas figuras recorrentes do dia a dia de quem vivia nos arredores do CAC pré-pandemia permanecem lá. uma delas é o senhor dos livros usados do CFCH. ele sim continua sentado próximo aos seus livros em uma das mesas de xadrez no térreo do prédio, onde costumavam ficar os restos dos cabos de um elevador quebrado e que finalmente não está mais lá. inclusive olhando de longe para ele hoje em dia – ainda lá e sem máscara, ouso dizer que é quase como se nada tivesse acontecido no mundo. estranhamente, essa foi uma das cenas que me trouxe conforto.

entre outras coisas, ir ao CAC neste dia foi quase como atravessar um portal estranho, uma mistura de passado e presente. acredito que saudosismo é o sentimento que mais chega perto de descrever o que senti. ou não, afinal estou valorizando um passado que não continua mais aqui, mas que, de certa forma, ainda parece estar presente.

crônica produzida originalmente para disciplina de redação jornalística 3, do curso de graduação em comunicação social - jornalismo, na universidade federal de pernambuco. 

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